Arte dura, suja e bela dos tanoeiros.

  • by

Na cave de vinhos Cockburn’s

Nas profundezas da cave de vinhos Cockburn’s existe um amplo armazém em que o rugir das máquinas e dos martelos é tão constante quanto a madeira e o serrim no chão. O frenesim é criado por sete tanoeiros, aparelhados com inúmeras ferramentas que carregam em si o peso do tempo. Com as suas próprias mãos, mantêm viva a arte de reparar e montar barris nos quais os melhores vinhos do Porto envelhecem durante décadas. É um ofício em vias de extinção mas, há cerca de um ano, sangue novo entrou no armazém.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

Das Artes Gráficas à Tanoaria

Da equipa de sete tanoeiros, a última residente numa casa de vinhos do Porto, três deles têm mais de 50 anos e outros três andam em volta dos 40. Tiago Fonseca é a excepção, com os seus 22. Não foi o gosto nem a tradição de família que o levou ao ofício – não conhecia a arte nem ninguém que a praticasse. Estudou Artes Gráficas e nunca se imaginou tanoeiro. Até chegar à oficina por recomendação do pai, um conhecido da casa. Com alguma timidez, diz que ainda está “a ganhar o gosto” à arte, que reconhece como “pesada”, mas acredita que “é para continuar”.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

Mestre António Sá

“Nós estamos a precisar de mais rapaziada nova para aprender, porque isto não se aprende em dois dias”. Quem o diz é António Sá, mestre daquela equipa que existe há quase uma década, nas caves Cockburn’s. António fez-se tanoeiro em tenra idade – tinha só 14 anos. Também não tem, nem nunca teve, algum familiar no ofício: “Fui para uma empresa como electricista, mas como o encarregado precisava de dois rapazitos novos, agarrou-nos para a tanoaria e nunca mais nos deixou. E eu aprendi a arte.”

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

Pipas podem durar 70 anos

Tiago chegou à oficina há quase um ano. A aprendizagem tem sido contínua. Chegou a “dar cabo de uns dedos”, por descuido, mas tem sido mentorado por todos os tanoeiros: “É muito um trabalho de equipa.” Com 35 anos de arte, António tem sido um dos que o tem orientado: “Gosto de ensinar aquilo que me ensinaram a mim”, admite.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

Produção dos barris

Ao percorrer a tanoaria, como faz regularmente para ver se tudo está em ordem, António vai soltando, entre a insistência dos martelos, um “Esse arco está torto!” ou um “Olha bem para o que estás a fazer”. Pelo caminho, explica as entranhas do ofício e os olhos brilham-lhe. Em segundos, volta aos “tempos de maçarico” e relembra como, na produção dos barris, se cozia e vergava a madeira, sem que ela partisse.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

“Não há condições para ensinar”

O fumo, o cheiro e o calor já não enchem aquele armazém como encheram tantos, outrora. No sítio onde estão, “não há condições para ensinar a arte de construir uma pipa de raiz”, conta António. E, por isso, todo o conhecimento que tem guardado na cabeça não tem passado para a geração seguinte. Até porque agora há máquinas que fazem em metade do tempo aquilo que custa, aos tanoeiros, tamanha força, perícia e suor.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

Madeira de carvalho centenária

Os cascos, pipas feitas de madeira de carvalho centenária, que conseguem armazenar mais de 550 litros, podem durar entre 40 e 70 anos. Mas quando há falhas, são os tanoeiros os cirurgiões. Compor os que ficaram “rotos” é tudo o que fazem naquela tanoaria. Não é preciso deixar as aduelas a secar, nem é preciso dobrá-las. Toda a madeira é velha e reutilizada de pipas que são desmanteladas. O processo é cortado a metade, mas, ainda assim, trabalho não é coisa que falte. E o primeiro passo é feito a giz: “Assinalamos o que estiver mal e enumeramos as aduelas do casco para, no caso de a aduela cair ao chão ou se abater, a gente saber de onde ela é. As aduelas fazem muita diferença entre si.”

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

Sabor a “tanino” da madeira

As boas aduelas aproveitam-se. As más são substituídas por outras reutilizadas, que se vêem encostadas à parede, já tingidas de roxo. A cor não é enfeite. Quando as aduelas estão assim é porque já estiveram, pelo menos, cinco anos em contacto com o vinho e é garantido que não vão contaminar a bebida com o sabor a “tanino” da madeira.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

“Armar o casco”

Trata-se de polir os juntos para que as aduelas encaixem perfeitamente umas nas outras.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

Um trabalho minucioso

A um ritmo constante, deixam cair o peso do malho, quase sem esforço, sobre o metal: entre os juntos é colocada palha de tábua, para que o casco fique realmente vedado. Depois, os cascos saem da tanoaria para serem testados e desinfectados. E quanto dura tudo isto? Depende muito. Se o casco tiver aduelas e fundos bons, demora meio-dia a repará-lo. Mas caso os danos sejam maiores, o prazo estende-se.

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

A Arte dura, pesada e suja

António receia que o ofício tenha chegado perto do fim. As razões são as esperadas: “Talvez por ser um ofício duro, pesado, sujo. Tomara eu que aparecessem mais jovens para aprender.”

Numa das caves de vinhos de Gaia, sete homens trabalham a arte dos barris em que o vinho de melhor qualidade repousa durante décadas.

A Arte de ser aprendiz

Tiago está a pensar  levar os amigos às caves. Quer que eles vejam e entendam a arte de que é aprendiz e que é fundamental para a qualidade do vinho que transporta o nome do Porto  para o mundo. A arte que aos pouquinhos, o tem vindo a conquistar.

 

Adaptado de: Publico